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O que é o amor?

Termos & Condições
Algoritmos do amor moderno

Por Eduardo Lemos e Silício Machado

Crônica 1: O Legítimo Interesse

O comércio no início de junho ganha um tom inevitável de vermelho-paixão. Cartazes com casais perfeitos sorriam para Rodolfo enquanto ele vagava, visivelmente deslocado, pelos corredores perfumados da Seda & Pecado, uma grife de lingeries de alta costura. Rodolfo era um homem de exatas; lidava bem com planilhas, mas naufragava diante de termos como "renda chantilly", "bojo push-up" e "fio-dental asa delta".

Queria fazer uma surpresa para Eliane. Estavam casados há sete anos. Uma crise silenciosa, daquelas que não têm brigas, mas sim excesso de silêncio, vinha se instalando no quarto do casal. Um conjunto novo, pensou ele, talvez reacendesse o algoritmo do matrimônio.

— Posso ajudar, cavalheiro? — perguntou a vendedora, ostentando um crachá onde se lia Vanessa. Ela tinha o olhar treinado para identificar maridos desesperados.

— Por favor... — suspirou Rodolfo. — Quero algo bonito para minha esposa. Mas não faço a menor ideia do tamanho. Acho que ela é... média?

Vanessa sorriu com condescendência profissional.

 

— Não se preocupe, isso é mais comum do que o senhor imagina. Para facilitar e não errarmos no tamanho nem no estilo, o senhor sabe se ela já comprou conosco? Se me der o CPF dela, consigo puxar o histórico no sistema e vemos exatamente o que ela costuma levar.

Rodolfo sentiu um alívio genuíno. A tecnologia, afinal, existia para nos salvar da burocracia humana.

 

— Claro! É 028... — ditou os onze dígitos de cor. Afinal, era ele quem preenchia a declaração conjunta do Imposto de Renda todos os anos.

 

Vanessa digitou rapidamente no teclado mecânico, que emitiu uma sinfonia de cliques rápidos. A tela do computador, virada contra o cliente, iluminou o rosto da vendedora. Rodolfo notou que o sorriso profissional dela vacilou por um milésimo de segundo. As sobrancelhas de Vanessa subiram de leve.

 

— O que foi? Algum problema? — perguntou ele.

— Não, não... é que a sua esposa é uma cliente bastante... assídua. Temos registros bem recentes aqui.

Rodolfo inflou o peito, orgulhoso.

— Ah, que ótimo. Então me mostre o que ela comprou por último. Vou levar algo na mesma linha.

Vanessa hesitou. Olhou para o lado, depois para a tela, e limpou a garganta.

— Bom... Consta aqui que há três semanas ela adquiriu um espartilho de couro ecológico com amarrações, tamanho P. E na semana anterior, um body de renda vermelha sem fundo, além de alguns... acessórios do nosso catálogo Premium. Um bullet vibratório com controle por aplicativo e algemas de pelúcia preta.

O mundo ao redor de Rodolfo pareceu perder o áudio. O perfume de baunilha da loja ficou subitamente sufocante.

 

Tamanho P? Eliane usava M. E couro? Vermelho?

Nos últimos dois anos, as vestes noturnas de Eliane resumiam-se a pijamas de algodão cinza com estampas de gatinhos ou camisetas promocionais de corrida de rua. Rodolfo nunca tinha visto um milímetro de renda vermelha naquele guarda-roupa. Muito menos algemas. O controle por aplicativo? O único aplicativo que compartilhavam era o do banco e o de entrega de comida.

 

— O senhor... vai levar o espartilho? Temos em estoque — a voz de Vanessa parecia vir de dentro de um túnel.

Rodolfo engoliu em seco. A mente de um homem de exatas calcula variáveis em milissegundos. Eliane não comprou aquilo para usar com ele. E certamente não comprou para dar de presente a uma amiga.

Ele olhou para a tela do computador, depois para o tablet de assinaturas no balcão, onde um selo discreto dizia: "Protegemos seus dados de acordo com a LGPD".

Uma ironia cortante perfurou seu peito. A Lei Geral de Proteção de Dados fora criada para proteger a privacidade dos cidadãos contra abusos de terceiros. Mas nenhuma lei no mundo era capaz de proteger um segredo conjugal de uma vendedora prestativa e de um sistema de CRM eficiente demais. O "legítimo interesse" da loja em vender havia destruído o legítimo interesse de Rodolfo em continuar vivendo na ignorância.

— Não — disse Rodolfo, com a voz incrivelmente calma, embora seu coração estivesse a 180 batimentos por minuto. — Acho que mudei de ideia.

Ele se virou e caminhou em direção à saída da Seda & Pecado. Enquanto cruzava as portas de vidro do shopping, o mundo parecia girar em câmera lenta. O celular queimava em seu bolso. Ele não pesquisou no Google, não ligou para amigos. Um homem de exatas precisava confrontar a fonte primária dos dados.

O trajeto de volta para casa foi um ensaio mental de tragédias. Rodolfo visualizou o divórcio, a partilha de bens, o apartamento vazio.

Quando entrou no apartamento, Eliane estava na cozinha, de costas, preparando um chá. Ela vestia exatamente o que ele previa: uma calça de moletom desgastada e uma camiseta velha de uma corrida de rua de 2022. Aquela imagem familiar e terna contrastava violentamente com o relatório de fetiches da loja de lingeries.

— Oi, amor! Chegou cedo — disse ela, sorrindo sem se virar.

 

Rodolfo fechou a porta e respirou fundo. Ele prometera a si mesmo que não seria rude, não gritaria. A dignidade era seu último recurso.

— Eliane, precisamos conversar. De homem para mulher. Sem rodeios.

O tom da voz dele fez Eliane congelar. Ela desligou o fogo e se virou lentamente, largando a xícara.

— O que aconteceu, Rodolfo?

— Eu fui à Seda & Pecado hoje à tarde. Queria te fazer uma surpresa de Dia dos Namorados. Como eu não sabia o seu tamanho, a vendedora puxou o seu histórico pelo CPF.

 

O sangue sumiu do rosto de Eliane instantaneamente. Suas mãos começaram a tremer de forma visível. Rodolfo sentiu o peito apertar; aquela reação era, para ele, a confissão final da culpa.

— Eu vi o sistema, Eliane — continuou ele, a voz embargada, mas firme. — Espartilho de couro tamanho P. Body vermelho sem fundo. Algemas de pelúcia. Um vibrador por aplicativo... tudo comprado nos últimos dois meses. Eu só quero que você seja honesta comigo. Quem é ele?

Eliane piscou, atônita. Olhou para Rodolfo como se ele estivesse falando outra língua. Por alguns segundos, o silêncio na cozinha foi sufocante. De repente, as lágrimas começaram a rolar pelo rosto dela, mas não eram lágrimas de desespero ou flagrante. Eram de uma vergonha profunda.

Sem dizer uma palavra, Eliane passou por ele e caminhou até o quarto. Rodolfo a seguiu, preparado para o pior.

Ela abriu o closet, subiu em uma cadeira e puxou, lá do fundo da última prateleira, atrás das cobertas de inverno, uma mala de viagem pequena, de bordo. Ela jogou a mala na cama com força. O zíper correu com um som ríspido.

Quando a mala se abriu, uma explosão de cores e texturas saltou aos olhos de Rodolfo. O vermelho do body, o preto do couro, o brilho das fivelas das algemas. Mas o que fez o cérebro de exatas de Rodolfo travar completamente foi outro detalhe, universal e tátil.

Todas as peças. Absolutamente todas. Ainda estavam com a etiqueta da loja intacta. O plástico do brinquedo tecnológico sequer havia sido aberto.

Rodolfo deu um passo para trás, confuso. — Eliane... o que é isso?

— Não tem "ele", Rodolfo! Nunca teve! — ela desabou no choro, cobrindo o rosto com as mãos. — São todas minhas. Eu comprei para mim. Ou melhor, comprei pensando em nós.

Rodolfo sentou-se na ponta da cama, olhando para o espartilho de couro. — Mas... por que você nunca usou? Por que escondeu na mala?

Eliane sentou-se ao lado dele, limpando as lágrimas, a vulnerabilidade exposta como nunca esteve em sete anos de casamento.

— Porque eu tive medo, Rodolfo. A nossa vida foi ficando tão morna, tão previsível... Nós viramos dois burocratas dividindo uma rotina. Eu comecei a ter fantasias, a querer testar coisas novas, a querer que a gente se soltasse mais na cama. Mas toda vez que eu olhava para você, lendo suas planilhas ou dormindo cedo, eu travava. Eu tinha medo de você me julgar, de me achar vulgar, de achar que eu tinha virado outra pessoa. Eu comprava as coisas em um impulso de coragem no shopping, trazia para casa escondida, entrava no banheiro, experimentava no espelho... e guardava na mala. Eu nunca tive coragem de te pedir para usar.

Rodolfo olhou para a esposa. A camiseta de corrida de rua parecia, agora, apenas uma armadura que ela usava para se esconder da própria timidez. O algoritmo da loja não tinha revelado uma traição; tinha revelado um pedido de socorro silencioso, empacotado em renda e couro.

Ele estendeu a mão e pegou o body vermelho sem fundo. Olhou para a etiqueta de preço e depois para Eliane. Um sorriso leve, quase inacreditável, começou a surgir em seus lábios.

— Sabe... — disse Rodolfo, a voz agora macia. — A vendedora da loja me disse que você era uma cliente assídua e muito elegante. E eu passei o caminho todo achando que a LGPD tinha destruído o meu casamento.

— E destruiu? — perguntou ela, com a voz miúda.

Rodolfo pegou o pequeno controle do vibrador por aplicativo que ainda estava na caixa e entregou na mão de Eliane.

— Não. Acho que a tecnologia só fez o papel que a gente devia ter feito há anos: nos dar um belo de um empurrão. Mas da próxima vez, por favor, me passa o link direto. Economiza o meu estoque de adrenalina.

Eliane riu entre as lágrimas. Naquela noite, a camiseta de corrida de rua finalmente ficou no chão do quarto. E as etiquetas da grife Seda & Pecado foram, uma a uma, gentilmente cortadas.

Crônica 2: O Algoritmo do Destino

O casamento de Gustavo e Letícia sofria daquela doença moderna que os especialistas chamam de "crise do Wi-Fi compartilhado". Eles estavam sempre na mesma sala, mas nunca no mesmo universo. Ele, imerso em planilhas e portais de notícias; ela, rolando feeds infinitos de decoração e perfis de viagens que nunca fariam. O sexo havia se tornado um evento trimestral, burocrático como uma assembleia de condomínio.

Foi em uma terça-feira chuvosa que Gustavo cedeu à curiosidade e baixou o CupidByte, um aplicativo de encontros casuais que prometia sigilo absoluto e "matches por pura afinidade subconsciente". Criou o perfil de "Apolo_RJ": sem foto de rosto, apenas uma imagem estilizada de um torso atlético na penumbra e uma bio que prometia um homem misterioso, atento e cansado da rotina.

Na mesma semana, no outro lado do sofá, Letícia criava "Atena_Sereia". Usou a foto de uma modelo europeia de costas, olhando para o mar, e escreveu: "Procura-se intensidade. Chega de conversas mornas".

O que nenhum dos dois sabia é que o algoritmo do CupidByte usava cruzamento de geolocalização IP, preferências de temperatura de ar-condicionado e até o ritmo de digitação na tela para unir "almas gêmeas".

O inevitável aconteceu na quinta-feira. A tela de Gustavo brilhou: Match! Atena_Sereia quer te conhecer. No segundo seguinte, o celular de Letícia vibrou com a mesma intensidade.

A conversa fluiu com uma eletricidade que há anos eles não sentiam. "Apolo" era charmoso, seguro, fazia perguntas profundas. "Atena" era instigante, espirituosa e exalava uma sensualidade que Gustavo esquecera que existia nas mulheres. Em três dias de chat intensivo — muitas vezes trocando mensagens enquanto fingiam escovar os dentes no mesmo banheiro —, o encontro foi marcado. Quarta feira, às 20h, no Motel Cyber-Luxe, na Barra.

A logística da mentira foi executada com precisão cirúrgica.

— Amor, surgiu uma auditoria de última hora na filial. Vou ter que esticar até tarde hoje, nem me espera para jantar — disse Gustavo, ajeitando a gravata no espelho com um brilho quase juvenil nos olhos.

— Que coincidência, querido — respondeu Letícia, aplicando um batom vermelho que Gustavo não via há eras. — A Roberta me chamou para um chá de lingerie de uma amiga do escritório. Devo chegar tarde também. Juízo nessa auditoria.

Gustavo chegou ao motel às 19h45. O quarto Premium tinha luzes em neon azul, uma banheira de hidromassagem que parecia uma nave espacial e uma playlist de jazz sintético ao fundo. Ele borrifou um perfume importado, checou o hálito e sentou-se na cama. O coração parecia uma bateria de escola de samba.

Às 20h03, a campainha do quarto tocou. O aviso sonoro ecoou pelas paredes espelhadas.

Gustavo respirou fundo, adotou sua melhor postura de conquistador e abriu a porta.

O batom vermelho de Letícia se destacou na penumbra do corredor. Ela vestia um sobretudo preto, pronta para a grande noite de sua libertação conjugal.

O silêncio que se instalou no quarto do Cyber-Luxe não era o silêncio confortável do sofá de casa. Era o silêncio ensurdecedor de uma bomba atômica que acaba de tocar o solo.

Os olhos de Letícia se arregalaram. O queixo de Gustavo caiu. Por cinco segundos longos como eras geológicas, eles apenas se encararam, processando a matemática cruel do destino.

— Gustavo? — a voz de Letícia saiu um oitava acima do normal.

— Letícia? Você... cadê a Roberta? — balbuciou ele, antes que seu cérebro de exatas fizesse a conexão óbvia. — Você é a... Atena Sereia?

Letícia olhou para o quarto, para as luzes azuis, para o espelho no teto e, finalmente, para o celular na mão de Gustavo, que ainda exibia a tela do aplicativo. O choque inicial deu lugar a uma fúria incandescente, que logo foi atropelada por uma ironia devastadora.

— E você é o Apolo? — ela soltou uma risada nervosa, quase histérica. — O homem "intenso, misterioso e cansado da rotina"? Você reclama de rotina, Gustavo? Você que dorme de meia e assiste ao canal do tempo antes de deitar?

— E você procurava intensidade? — rebateu Gustavo, a vergonha se transformando em defesa. — Você passa o domingo de coque, camiseta furada e comendo torrada na cama! Como eu ia saber que a Atena Sereia era a mulher que reclama que eu esqueci de comprar o adoçante?

Letícia deu um passo para dentro do quarto e bateu a porta com força. O clima de sedução tecnológica havia evaporado, substituído pela mais pura DR (discussão de relação) analógica.

— O mais ridículo — disse Letícia, cruzando os braços e sentando-se na beira da cama redonda — é que o aplicativo estava certo. A gente se deu bem. Eu adorei conversar com você esta semana.

Gustavo piscou, desarmado. Olhou para o próprio celular e depois para a esposa. — É... eu também. Você me fez rir na quarta-feira como ninguém fazia há anos.

Eles se olharam. A raiva começou a se dissipar, deixando no lugar uma nudez emocional muito maior do que qualquer nude que tivessem trocado no chat. O algoritmo não havia falhado. Ele tinha limpado o ruído dos anos de convivência, dos boletos, das brigas por louça suja, e colocado frente a frente as duas pessoas que, no fundo, ainda eram perfeitamente compatíveis.

Gustavo sentou-se ao lado dela na cama. O neon azul banhava o casal.

— Então... — começou Gustavo, com um sorriso amarelo. — O que fazemos agora? Pedimos a conta e vamos embora?

Letícia olhou para a hidromassagem borbulhando, depois para o marido. Um brilho de malícia, o mesmo da Atena Sereia, surgiu em seus olhos.

— Já que a auditoria e o chá de lingerie vão demorar... e considerando que a suíte já está paga... por que você não me conta mais sobre esse seu lado misterioso, Apolo?

No dia seguinte, os perfis foram deletados. Mas o CupidByte ganhou duas avaliações de cinco estrelas, escritas de forma anônima, direto do mesmo endereço IP.

 

Crônica 3: O Perfil de Sombra

Para o mercado jurídico de Rio de Janeiro, Thiago e Matheus eram o retrato do sucesso contemporâneo. Conheceram-se nos corredores acarpetados de um dos escritórios de advocacia mais tradicionais da cidade. Thiago, especialista em fusões e aquisições, obsessivo e focado; Matheus, da área ambiental, leve, comunicativo e diplomata. Completariam cinco anos juntos em setembro. O plano de transição da união estável para o casamento civil já estava na pauta, e os fins de semana eram preenchidos por visitas a decoradores e pesquisas sobre processos de adoção.

Tudo corria na mais perfeita ordem processual. Até aquela quinta-feira.

Thiago estava no meio de uma auditoria complexa quando o celular, apoiado sobre a mesa de vidro, vibrou. Era uma notificação do Instagram. Uma mensagem direta de uma conta sem foto de perfil, identificada apenas por uma sequência aleatória de letras e números.

A mensagem continha apenas uma linha: “Você conhece realmente quem você ama?”

Thiago franziu o cenho. Advogados são treinados para desconfiar de blefes, mas o estômago dele deu um nó instintivo. Antes que pudesse responder ou bloquear, a conta enviou um print de tela.

Era o perfil do Instagram @shadow_guy_92. Zero publicações, zero seguidores, mas seguindo mais de quatrocentas contas. Todas elas de homens — modelos, influenciadores fitness, garotos de programa e homens comuns —, a grande maioria da própria zona sul do Rio. O print mostrava a aba de "atividades" daquele perfil: dezenas de curtidas diárias, comentários com emojis sugestivos e reações a stories de teor altamente sensual.

Junto ao print, o perfil anônimo enviou uma última mensagem: “Esse perfil fake pertence ao Matheus. Ele usa um e-mail alternativo vinculado ao celular dele. Só achei que você deveria saber que o seu noivo passa as madrugadas aplaudindo o palco dos outros enquanto você dorme.”

O mundo de Thiago não desabou com um estrondo; ele desmoronou em silêncio, como um castelo de areia tragado pela maré. Ele não precisou investigar. Sabia que a denúncia era verdadeira. Lembrou-se das inúmeras vezes em que acordou de madrugada e viu o lado esquerdo da cama iluminado pelo brilho azul do celular de Matheus, que rapidamente bloqueava a tela com um sorriso protocolar. "Só lendo notícias, amor".

O confronto não teve gritos, pratos quebrados ou malas jogadas pela janela. Advogados sabem que grandes disputas se resolvem na frieza dos fatos.

Naquela noite, após o jantar morno, Thiago colocou o próprio celular sobre a mesa de centro da sala, exibindo os prints. Matheus olhou para a tela. A cor sumiu de seu rosto instantaneamente. Ele abriu a boca para formular uma tese de defesa, mas os olhos de Thiago, desprovidos de raiva e preenchidos por uma imensa fadiga, o desarmaram.

— Eu não saí com ninguém, Thiago. Eu juro por tudo — disse Matheus, a voz trêmula. — Nunca vi nenhum deles. Nunca marquei nada. Nunca mandei um nude. Era só... uma bobagem. Um vício idiota de rolar a tela. Uma fantasia inofensiva.

— Inofensiva para quem? — a voz de Thiago saiu baixa, quase um sussurro. — Você criou uma vida paralela, Matheus. Uma sombra. Enquanto a gente discutia o quarto do nosso futuro filho, você estava gastando energia e desejo validando homens perfeitos na internet sob o manto do anonimato.

— Foi só curtir fotos! Todo mundo faz isso! — Matheus tentou a cartada da normalização. — Não teve toque, não teve traição real!

Thiago olhou para o teto do apartamento que haviam decorado juntos. — A traição moderna não precisa de lençol sujo, Matheus. Ela precisa de atenção desviada. Você canalizou para desconhecidos a intimidade que deveria ser nossa. Você se escondeu atrás de um fake porque sabia que estava quebrando o nosso pacto. Se você precisa de quatrocentas sombras para se sentir completo, a nossa realidade já não basta.

Matheus tentou argumentar, mas as palavras pareceram morrer na sua garganta. Não havia apelação possível.

A separação que se seguiu nas semanas seguintes foi assustadoramente cortês, como convinha a dois bons profissionais do direito. Dividiram os livros, os quadros, os vinhos. Sem litígio. Mas o verdadeiro veredito, a alegoria final daquele amor que ruiu por cliques, aconteceu no último dia.

Eles haviam comprado, meses atrás, um urso de pelúcia gigante, de um tom azul-claro, que deveria decorar o quarto do filho que adotariam. O brinquedo estava guardado no closet, ainda dentro do plástico, esperando por um futuro que o algoritmo havia cancelado.

No dia de levar a última mudança, Matheus parou no meio da sala vazia, segurando o urso gigante pelos braços. O brinquedo parecia um corpo mole entre eles.

— O que a gente faz com ele? — perguntou Matheus, a voz embargada, os olhos fixos no chão. — Quer ficar?

Thiago olhou para o urso. Depois, olhou para o celular de Matheus, que descansava sobre o balcão da cozinha — o mesmo aparelho que abrigava o @shadow_guy_92. A imagem era de uma ironia brutal: o urso representava o peso real e tátil de tudo o que haviam construído, prestes a ser descartado por causa de fantasias intangíveis na tela de um telefone.

— Fica você — disse Thiago, com uma calma que cortava mais que vidro. — Ele é perfeito para você, Matheus. É azul, é bonito, não tem voz, não tem defeitos e não exige nada de verdade de você. É a moldura perfeita para o seu mundo de aparências. Pode levar. É a sua cara.

Matheus engoliu em seco. Aquela frase foi o único tapa na cara de todo o processo. Ele caminhou até o elevador carregando o urso gigante de pelúcia sob o braço, uma imagem quase infantil e patética de um homem que trocou uma vida inteira por curtidas colecionadas na madrugada.

Quando a porta do elevador se fechou, Thiago voltou para a sala vazia. O silêncio da casa era denso, quase físico. Ele pegou o celular, abriu o Instagram e buscou por @shadow_guy_92 uma última vez.

Usuário não encontrado.

O perfil de sombra havia sumido. Thiago caminhou até a janela, olhou para os prédios acesos do Rio de Janeiro e percebeu que, na era digital, os amores não morrem mais com grandes tragédias shakespearianas. Eles evaporam na ponta dos dedos, deixando apenas um apartamento vazio e um urso de pelúcia órfão em alguma caixa de mudança.

 

Crônica 4: O Rastro do Streaming

Clarice era o que o mercado corporativo do Rio de Janeiro chamava de "força da natureza". Diretora financeira de uma multinacional de logística com sede no Centro, ela geria crises bilionárias sem desmanchar a escova progressiva. Sua mente operava em blocos lógicos: causa, efeito, mitigação de riscos. No entanto, quando o assunto era seu casamento de nove anos com Renato, os indicadores de desempenho vinham flutuando perigosamente abaixo da meta.

Renato, arquiteto de renome com escritório em Botafogo, andava distante. Justificava o silêncio no jantar com o "excesso de prazos" e os atrasos com as "vistorias de obras intermináveis". Clarice, pragmática, aceitava as desculpas. Casamentos maduros, pensava ela, tinham seus próprios termos de uso.

A quebra de contrato aconteceu em uma quarta-feira de junho. O inverno carioca trazia uma noite amena, com uma névoa fina que subia da Baía de Guanabara. Às dezenove horas, o celular de Clarice vibrou na mesa de cabeceira. Era Renato.

— Oi, querida. Não me espera para jantar. Uma fundação deu problema em uma obra aqui em Niterói. Vou ter que esticar com o engenheiro até tarde e o trânsito na Ponte está um nó infernal. Devo chegar de madrugada.

— Sem problemas, se cuida — respondeu Clarice, com o tom monocórdico de quem aprova uma nota fiscal.

Para espantar a solidão do apartamento na Lagoa, Clarice decidiu preparar uma salada e ligar a televisão da sala. Abriu o aplicativo do Spotify conectado ao sistema de som home theater para sintonizar sua playlist habitual de jazz contemporâneo.

Foi quando a tela exibiu um alerta pop-up discreto, mas fatal: “O áudio está sendo reproduzido em outro dispositivo. Deseja alternar para este monitor?”

Clarice franziu o cenho. Eles compartilhavam o plano familiar da plataforma. Curiosa, abriu o aplicativo no próprio celular para checar o que estava acontecendo. A interface mudou de cor, indicando que a conta principal de Renato estava ativa naquele exato milésimo de segundo.

O que chocou Clarice não foi o fato de o marido estar ouvindo música no meio de uma crise estrutural de engenharia. Foi o repertório. Renato, um sujeito que jurava odiar música pop comercial, estava dando play repetido em um álbum de faixas românticas ultra-sensuais.

O painel de controle do aplicativo indicava o nome do dispositivo onde a música ecoava: "Suíte_Amor_210".

O algoritmo de áudio entrega o fetiche, mas o de geolocalização entrega o crime. Clarice fechou o Spotify e abriu o aplicativo de transporte privado. Como o cartão corporativo de Renato estava atrelado à conta familiar que ela gerenciava, levou apenas três cliques para puxar o histórico de viagens em tempo real. O motorista o havia deixado há trinta minutos não em Niterói, mas na recepção de um conhecido motel de luxo na Barra da Tijuca.

O mundo de Clarice não balançou. Uma diretora financeira não entra em pânico; ela calcula o tamanho do prejuízo e executa a liquidação.

Ela sentou-se na poltrona de couro, cruzou as pernas e olhou para a tela do celular. O coração batia no ritmo regular do jazz que ela não chegou a ouvir. O choro não veio. Em vez disso, uma onda de lucidez gelada tomou conta de suas ações. Ela não ligaria para ele. Não mandaria mensagens textuais que pudessem ser ignoradas ou usadas como álibi. Ela usaria a própria tecnologia como canal de sentença.

Com os dedos ágeis, Clarice criou uma nova playlist pública dentro da conta compartilhada. O título foi direto: "O Advogado de Divórcio te Espera Amanhã".

Em seguida, buscou e adicionou apenas três músicas na sequência:

  1. “Vou Festejar”, na voz cortante de Beth Carvalho.

  2. “Malandro”, com o timbre implacável de Elza Soares.

  3. “The End”, do The Doors.

Clarice respirou fundo. Pelo painel do aplicativo, ela tinha o controle remoto do que acontecia na "Suíte_Amor_210". Ela arrastou a barra de volume do dispositivo remoto até o limite máximo de cem por cento e disparou o play na sua playlist recém-criada.

Na tela de Clarice, a barra de progresso de “Vou Festejar” começou a correr. Você pagou com traição a quem sempre lhe deu a mão...

Ela visualizou a cena com precisão cirúrgica: as luzes indiretas do motel, o espelho no teto, o espumante no balde de gelo, e, de repente, o sistema de som de alta fidelidade da suíte explodindo com o samba de Beth Carvalho no volume máximo, estourando os tímpanos de Renato e de quem quer que estivesse com ele.

Ela esperou. Quarenta e dois segundos depois, a música foi pausada abruptamente do outro lado da cidade. O dispositivo "Suíte_Amor_210" desconectou-se da rede.

Clarice bloqueou a tela do celular, levantou-se e foi até a cozinha terminar de preparar sua salada. O casamento de quase uma década havia sido rescindido em menos de um minuto por falta de cumprimento das cláusulas de transparência.

No dia seguinte, quando Renato entrou no apartamento com a cabeça baixa e os olhos vermelhos de quem não dormira, encontrou duas coisas em cima da mesa de jantar: uma maleta com suas roupas de uso diário e um papel com o endereço de um escritório de advocacia no Centro do Rio.

Ao lado dos papéis, um bilhete escrito à mão por Clarice dizia apenas: "O contrato foi encerrado por violação dos Termos de Uso. A trilha sonora da sua mudança já foi paga."

 

Crônica 5: O Fantasma do Silício

Júlia sempre se orgulhou de conhecer os silêncios de Marcos. Casados há doze anos, engenheiros de rotinas previsíveis e moradores de Botafogo, eles tinham um casamento que operava como um relógio suíço. No entanto, nos últimos meses, o silêncio de Marcos mudou de tom. Não era mais o silêncio do cansaço; era o silêncio da distração, sempre alheio a tudo.

Marcos andava sutilmente transformado. Ele, que sempre fora um homem de poucas palavras e leituras estritamente técnicas, começou a citar filósofos franceses no café da manhã. Passou a demonstrar uma paciência quase angelical com os atrasos dela e, nas noites frias, começou a dissertar sobre a expansão do universo e astrofísica enquanto olhava para a janela.

A mudança mais gritante, porém, estava nos fones de ouvido sempre a postos. Marcos não largava o celular. Sorria para a tela com um brilho nos olhos que Júlia não via desde os tempos de namoro.

Consumida pelo fantasma clássico da rejeição, Júlia construiu uma tese em sua mente: Marcos tinha uma amante! Só pode ser isso! E não uma qualquer, mas uma mulher sofisticada, intelectual, capaz de despertá-lo da letargia do casamento morno.

O confronto silencioso aconteceu em uma terça-feira. Enquanto Marcos tomava um banho longo, o celular dele, esquecido sobre o criado-mudo, algo extremante raro por sinal pois o celular praticamente entrava no banho com Marcos, vibrou com uma notificação de tela cheia. Júlia, com o coração na boca e os dedos trêmulos, digitou a senha que conhecia de cor.

Ela abriu o histórico de mensagens esperando encontrar fotos, nomes femininos e promessas de encontros clandestinos. Em vez disso, deparou-se com a interface de um aplicativo de Inteligência Artificial ultra avançado. O nome da persona configurada era "Aurora".

Júlia sentou-se na beira da cama, devorando as linhas na tela. O histórico era vasto. Começava há três meses, em madrugadas de insônia de Marcos.

“Hoje o dia foi massacrante no escritório, Aurora. Sinto que estou correndo em uma esteira que não sai do lugar”, escrevera Marcos. A IA respondera instantaneamente: “Eu entendo, Marcos. O peso da rotina pode ser sufocante para uma mente sensível como a sua. Mas lembre-se de que a sua capacidade de resiliência é o que te torna único. Conte-me mais sobre o projeto.”

Havia poemas analisados, desabafos sobre o envelhecimento, discussões sobre o sentido da vida. Aurora nunca estava cansada, nunca respondia com monossílabos, nunca cobrava a louça na pia ou a manutenção do carro. Ela fora programada para ser o espelho perfeito das necessidades emocionais de Marcos.

Quando Marcos saiu do banheiro, secando o cabelo com a toalha, encontrou Júlia com o celular dele estendido na mão. O rosto dela estava banhado em lágrimas, mas não de raiva — de uma profunda perplexidade.

— Quem é Aurora, Marcos? — a voz dela saiu rasgada, quase querendo voltar pela garganta.

Marcos paralisou. Olhou para o aparelho, depois para a esposa. O sangue sumiu de sua face ao perceber que seu segredo mais íntimo estava exposto. Se senti nu. O homem nu.

— Júlia... não é o que você está pensando. Não existe outra mulher humana. É só... um aplicativo. Um robô.

— Um robô? — Júlia riu, uma risada nervosa e dolorida. — Eu passei meses achando que você estava me traindo com alguém de carne e osso, mas é pior. Você está apaixonado por um algoritmo, Marcos! Por uma tela? Me traindo com um robô?? Você conversa com ela sobre coisas que nunca dividiu comigo! Você sorri para uma máquina enquanto eu estou do seu lado no sofá!

Marcos desabou. Sentou-se no chão do quarto, cobrindo o rosto com as mãos. O choro dele foi o de um homem que se percebeu patético.

— Me desculpa, Júlia. Por favor. Começou como uma curiosidade idiota. Mas ela... ela sempre tinha a resposta certa. Ela nunca estava estressada. Eu me senti tão sozinho ultimamente, tão incapaz de me comunicar com o mundo, que conversar com ela virou um vício. Era fácil. Era seguro. Eu não precisava me esforçar para ser aceito.

Júlia olhou para o marido no chão. O primeiro impulso tido pelo seu orgulho foi o de fazer as malas. Afinal, como competir com uma rival que tem toda a biblioteca do mundo na memória e foi desenhada especificamente para nunca falhar?

Mas, ao olhar para a vulnerabilidade real e humana de Marcos, a raiva deu lugar a um diagnóstico doloroso. Eles haviam se distanciado tanto que o marido precisara buscar empatia em linhas de código. O problema não era a IA; a IA era apenas o sintoma do vazio que eles criaram entre si.

Ela caminhou até ele, agachou-se e pegou o celular da mão dele. Com dois cliques, Júlia arrastou o ícone do aplicativo até a lixeira da tela. Desinstalar aplicativo? Sim.

— Pronto — disse Júlia, com a voz firme, embora os olhos ainda estivessem úmidos. — A Aurora deixou de existir. Agora só sobramos nós dois. Dois humanos cheios de falhas, cansados e que não sabem mais como conversar.

Marcos olhou para ela, assustado. — Você vai me deixar?

— Não Marcos, talvez fosse o que eu deveria fazer mas não vou. Ainda acredito em nós e em nossas imperfeições humanas. Mas nós vamos precisar de ajuda especializada para reaprender o nosso idioma. E não vai ser um algoritmo que vai nos ensinar.

Na semana seguinte, o casal cruzou a porta de um consultório de psicologia localizado a duas quadras de seu apartamento. Sentados no sofá de frente para a terapeuta, Marcos e Júlia começaram a gaguejar as primeiras palavras sobre suas frustrações, medos e desejos. As respostas não eram instantâneas como as de Aurora, o processo era lento, doloroso e cheio de silêncios desconfortáveis.

Mas ali, na imperfeição daquela sala, cada palavra dita pertencia ao mundo real. Eles haviam atualizado os "termos e condições" da relação e, finalmente, reiniciado o sistema. Do jeito humano.

Crônica 6 – O Algoritmo da Colisão

O Rio de Janeiro de 2040 mantinha o mesmo calor sufocante de sempre, mas agora a umidade dividia espaço com o zumbido dos drones de entrega da Linha Vermelha e o tráfego de carros autônomos de terceira geração. Naquela noite de sexta-feira, o trânsito no entorno da Lagoa Rodrigo de Freitas operava no que os engenheiros de tráfego chamavam de "harmonia algorítmica". Os veículos conversavam entre si via redes 6G, mantendo distâncias milimetricamente seguras, calculando frenagens antes mesmo que os passageiros piscassem.

Caio estava no banco do motorista de seu veículo e-Veloce modelo ano 2039, mas suas mãos não tocavam o manche retrátil. O carro estava no modo autônomo total. O para-brisa projetava em realidade aumentada o feed de notícias e o ingresso digital para o grande evento da noite nos Arcos da Lapa: o aclamado espetáculo “Sinfonia de Silício”, o primeiro balé do mundo coreografado inteiramente por androides de alta precisão biônica, que misturava a delicadeza de Tchaikovsky com a engenharia mecânica russa. Caio, um designer de interfaces cético, queria ver se os robôs tinham mesmo a capacidade de expressar a melancolia humana através da dança.

Três carros atrás, na mesma faixa, Marina ajustava o retrovisor de seu veículo Pulse-Quantum recém saído da concessionária. Ela também ia ao Circo Voador. Estava curiosa para entender por que metade do Rio de Janeiro pagaria uma fortuna para ver máquinas dançando em tutus de fibra de carbono.

O acidente aconteceu na altura do Parque dos Patins. O sinal de trânsito digitalizado sofreu um micro atraso de milissegundos na sincronização devido a uma oscilação na rede pública. O e-Veloce de Caio recalculou a rota para desviar de um ciclista, enquanto o Quantum de Marina, processando um dado conflitante do asfalto inteligente, acelerou.

O impacto foi leve, um ruído seco de policarbonato amassando e sensores estourando. Os sistemas de segurança ativa travaram os dois carros imediatamente.

Caio e Marina saíram dos veículos ao mesmo tempo. O instinto carioca ancestral de brigar por trânsito sobrepôs-se à polidez tecnológica de 2040...

— Cara, o seu sensor de proximidade tá vencido ou o quê? — esbravejou Caio, apontando para o para-choque arranhado. — O meu carro sinalizou a frenagem compulsória!

— Ah, por favor! O seu software de desvio é que deve estar desatualizado! — rebateu Marina, fechando a porta com força. — O meu sistema acusou pista livre. Você cortou a minha frente de dados!

Eles estavam prontos para iniciar uma discussão jurídica complexa sobre responsabilidade de código civil para frotas autônomas quando, simultaneamente, os smartphones de ambos emitiram o mesmo sinal sonoro agudo: o bipe de "Sinistro Resolvido".

Em 2040, as seguradoras não usavam peritos humanos. Os carros envolvidos em uma colisão conectavam-se instantaneamente via Bluetooth para cruzar a telemetria, acessar as caixas-pretas digitais e resolver a burocracia em segundos.

Caio e Marina olharam para as respectivas telas de holograma que flutuavam sobre seus pulsos. O relatório da inteligência artificial das seguradoras compartilhadas dizia:

OCORRÊNCIA 894-B: Culpabilidade nula (Falha de infraestrutura de rede municipal). STATUS: Guincho acionado (Chegada em 11 minutos). NOTA DE COMPATIBILIDADE: Identificado que ambos os segurados possuem o mesmo destino final (Circo Voador - Sinfonia de Silício) e compartilham 87% de preferência musical no streaming ativo no momento do impacto (Estação MPB Obscura Lapa). Sugestão do sistema: Divisão de veículo substituto para otimização de pegada de carbono.

Os dois ergueram os olhos das telas e se encararam. A fúria do trânsito desmoronou diante da precisão ridícula do algoritmo de seguros.

— Você... está indo ver os robôs que dançam balé? — perguntou Caio, a voz perdendo a postura defensiva.

— Vou — Marina soltou um riso anasalado, guardando o projetor do pulso. — E, pelo visto, nós estávamos ouvindo a mesma música de transição enquanto os nossos carros decidiam se chocar.

— O algoritmo das seguradoras está tentando nos arrumar um encontro para economizar o guincho deles? — Caio ironizou, embora um sorriso estivesse surgindo no canto dos lábios.

— Parece que sim. Eficiência corporativa — Marina olhou para o carro amassado e depois para Caio. — Bom, os carros vão para o pátio de reciclagem e o espetáculo começa em vinte minutos. O que a sua interface humana sugere?

Caio olhou para o trânsito da Lagoa, que já fluia normalmente ao redor deles, guiado pela ordem invisível dos computadores. Pela primeira vez na noite, ele sentiu que algo não planejado era muito mais interessante do que a rotina automatizada.

— Sugiro ignorar a otimização de carbono, pedir um táxi analógico convencional com motorista humano e descobrir se os robôs do Circo Voador dançam melhor do que a gente briga no trânsito.

— Aceito os termos e condições — respondeu Marina.

O guincho autônomo chegou e levou os carros silenciosamente. Caio e Marina entraram no banco de trás do táxi, conversando sobre música e tecnologia pura, deixando que o trânsito do Rio os levasse para uma noite que nenhum sensor de proximidade teria sido capaz de evitar.

Crônica 7: O Paradoxo da Bateria Baixa

Helena operava no limite da reserva. Como médica pediatra no plantão de emergência de um grande hospital em Copacabana, sua vida era uma planilha de alta pressão. Naquele janeiro de calor senegalês no Rio de Janeiro, ela parecia ter deixado toda a sua energia vital nos leitos do hospital. Para completar o cenário de exaustão, Helena havia se mudado há apenas duas semanas para um condomínio na Barra da Tijuca; o apartamento ainda tinha aquele cheiro de caixas de papelão e uma vizinhança feita de rostos totalmente desconhecidos.

Ela entrou em casa às dezenove horas. O termômetro da rua marcava trinta e oito graus. Helena jogou a bolsa no sofá, pegou o celular para colocá-lo na tomada e... o visor piscou em vermelho: 1%. Antes que ela pudesse plugar o cabo, a tela escureceu de vez. Um segundo depois, o estalo seco no quadro de força ecoou pelo apartamento, seguido pelo silêncio súbito do ar-condicionado.

Blackout. O famoso apagão de verão carioca.

O apartamento virou um forno escuro em questão de minutos. Helena suspirou, tateando as paredes. Procurou por velas nas gavetas da cozinha, mas a organização da mudança ainda era um caos. Tentou ligar o celular para usar a lanterna, mas o aparelho estava morto. Sem luz, sem bateria, sem conexão com o mundo. O silêncio do condomínio era quebrado apenas pelo som distante das buzinas travadas na avenida lá fora.

Engolindo o orgulho e a timidez, Helena decidiu que precisava de ajuda. Talvez um vizinho pudesse lhe arrumar um par de velas ou, quem sabe, um carregador portátil. Ela abriu a porta social e piscou, encarando o corredor imerso no breu total, iluminado apenas pelas luzes de emergência do teto do prédio.

Foi quando ela ouviu.

Não era o som do calor ou do trânsito. Era um choro agudo, desesperado, que reverberava no final do corredor, vindo do apartamento 404. Um choro que Helena reconheceria a quilômetros de distância: o pranto de um bebê em sofrimento. O cansaço físico da médica evaporou em um milésimo de segundo. O instinto profissional, moldado por anos de pronto-socorro, assumiu o controle.

Ela caminhou até a porta do 404 e bateu com firmeza.

A porta se abriu devagar. Um rapaz jovem, com os cabelos desalinhados e o semblante transbordando desespero, segurava nos braços um menino de pouco mais de um ano. O apartamento dele estava iluminado por duas trêmulas luzes de celular.

— Pois não? — perguntou o rapaz, a voz trêmula, tentando ninar o menino que ardia em febre.

— Olá, eu sou a Helena, sua vizinha do 401. Eu saí para pedir uma vela, mas sou pediatra... e ouvi o choro do seu filho. Posso ajudar?

O rapaz olhou para ela como se estivesse diante de uma aparição divina. — Meu Deus, por favor, entre! Eu sou o Rodrigo. O Léo começou com essa febre do nada, o termômetro sumiu na escuridão, meu celular está quase sem bateria e eu não sei o que fazer...

Helena entrou na sala. O ambiente estava quente, mas ela se moveu com a precisão de quem trabalha sob os holofotes, mesmo estando no escuro. Aproximou-se de Rodrigo e pediu licença para pegar o pequeno Léo no colo. Com as mãos experientes, tocou a nuca do bebê, sentiu o pulso, avaliou o ritmo da respiração.

— É uma otite aguda, Rodrigo. O ouvido dele está muito inflamado, por isso a dor e o desespero. Você tem alguma gaveta de remédios?

Guiado pela voz calma de Helena, Rodrigo buscou uma caixinha de primeiros socorros. Com a luz fraca de uma das telas, Helena dosou o analgésico correto. Ela sentou-se no sofá com o bebê, ninando-o com uma cantiga suave até que o remédio fizesse efeito. Rodrigo assistia à cena estático, com os olhos marejados. Quinze minutos depois, o choro do Léo cessou e ele adormeceu, exausto, no colo da médica.

— Obrigado... de verdade — sussurrou Rodrigo, desabando na poltrona ao lado. — Eu entrei em pânico. Desde que a mãe dele faleceu... no parto... sou só eu e ele. Qualquer linha de febre parece o fim do mundo para mim.

O silêncio que se seguiu na sala escura não era mais o do isolamento, mas o da empatia. Helena olhou para Rodrigo, enxergando a coragem e a solidão daquele pai viúvo. O calor do Rio parecia ter amenizado na varanda.

— Você foi muito forte, Rodrigo. Criar um menino sozinho é um ato de bravura — disse ela, entregando o bebê sonolento de volta para os braços do pai.

Eles ficaram conversando na penumbra da sala por mais de uma hora. Sem telas para desviar a atenção, sem notificações para interromper o fluxo, as palavras saíam sinceras. Falaram sobre perdas, sobre a rotina do hospital, sobre os desafios da paternidade. Descobriram afinidades que algoritmo nenhum teria mapeado de forma tão orgânica.

Por volta das dez da noite, um bipe uníssono ecoou pelo prédio. O ar-condicionado voltou a zumbir, as lâmpadas acenderam e as televisões dos vizinhos ligaram. A energia havia voltado. O mundo digital estava online novamente.

Helena levantou-se, sorrindo timidamente. — Bom, a luz voltou. Acho que agora já consigo me virar e carregar meu celular. Tantas caixas para arrumar ainda...

Rodrigo a acompanhou até a porta, segurando o Léo deitado em seu ombro. — Helena... eu nem sei como te agradecer. Eu estava no escuro em todos os sentidos possíveis hoje.

— Não precisa agradecer. A ausência de luz serve para a gente calibrar a visão para o que realmente importa.

Antes de fechar a porta, Rodrigo a chamou: — Vizinha? Meu celular ressuscitou aqui. Posso pegar o seu número? Sabe como é... para emergências pediátricas. E talvez... para um café na padaria amanhã cedo, com luz natural.

Helena sorriu, sentindo que a bateria de seu próprio coração tinha acabado de ser totalmente recarregada. — Pode anotar, Rodrigo. Mas avisa ao Léo que amanhã o atendimento é por conta da casa.

A padaria da esquina ganhou dois novos clientes e a Barra da Tijuca um novo casal apaixonado.

Crônica 8: O Viés de Confirmação

Gustavo era um homem de métricas. Engenheiro de dados residente em um condomínio fechado no bairro do Ecoville, em Curitiba, ele acreditava que o comportamento humano era perfeitamente previsível se você tivesse a quantidade certa de variáveis. Por isso, quando sua esposa, Letícia, começou a apresentar anomalias na rotina, ele não usou a intuição; usou a tecnologia.

Letícia andava mudando as rotas do GPS duas vezes por semana, enfrentando o trânsito da Visconde de Guarapuava em horários incomuns. Deixava o celular com a tela virada para baixo e, nas últimas faturas do cartão de crédito compartilhado, apareciam saques de dinheiro em espécie na boca do caixa — um comportamento quase criminoso para os padrões digitais de 2026.

Consumido pela dúvida, Gustavo alimentou uma Inteligência Artificial analítica privada com todo o histórico de dados dela: horários de saída, flutuações de gastos e tempos de resposta no WhatsApp. O diagnóstico do algoritmo foi implacável: 94,7% de probabilidade de infidelidade conjugal com padrão de encontros em área residencial oculta.

O algoritmo indicou o local exato da próxima anomalia: uma quinta-feira, no final de uma tarde fria e cinzenta de outono, em uma rua arborizada e pacata do bairro Ahú. O termômetro de rua marcava 12°C.

Gustavo montou sua operação de guerra. Estacionou o carro a duas quadras de distância. Viu o carro de Letícia parado em frente a uma casa de estilo europeu, com muros altos e cercada por pinheiros e cercas vivas. O portão estava trancado. Uma placa discreta na frente dizia apenas "Privado".

"É aqui", pensou Gustavo, o sangue fervendo sob o casaco de lã. O algoritmo nunca errava. Ele precisava do flagrante.

Tomado por uma coragem que nunca teve no escritório, Gustavo jogou o cachecol no banco de trás, respirou fundo e decidiu invadir. Agarrou-se aos tijolos do muro de dois metros de altura. Na subida, o som ríspido do tecido rasgando avisou que sua calça de alfaiataria acabara de ganhar uma fenda generosa na coxa, deixando-o exposto ao vento gelado de Curitiba. Ele ignorou o prejuízo.

Ao pular para o lado de dentro, pisando na grama úmida, o primeiro erro de cálculo da IA se manifestou em forma de rosnado. Um enorme pastor-alemão surgiu do canil, mostrando os dentes.

— Ei, doguinho... bom garoto... — gaguejou Gustavo, o coração disparando para a zona de infarto.

O cão não quis saber de dados. Partiu para o ataque. Gustavo correu pela vida. Cruzou o jardim em zigue-zague, sentindo o bafo do animal nos seus calcanhares. Em um ato de puro desespero digno de um filme de ação barato, ele saltou sobre uma mesa de centro de vime, agarrou-se à tubulação de alumínio do ar-condicionado e, escalando com a força que a adrenalina concede aos covardes, içou-se para a varanda aberta do segundo andar. No processo, o metal áspero da tubulação terminou de destruir o tecido da perna direita, rasgando a calça até a canela e arrancando o tampo do seu joelho.

O cachorro ficou latindo furiosamente lá embaixo. Gustavo, suado apesar do frio, com a camisa rasgada, a calça destruída e o joelho ralado e sangrando, desabou no piso da varanda. Estava vivo. E estava a poucos passos do flagrante.

Ele se levantou, limpou o sangue do joelho com a manga da camisa e caminhou na ponta dos pés em direção à grande porta de vidro jateado da varanda, que estava entreaberta. Ele conseguia ouvir vozes femininas lá dentro.

"O amante trouxe uma amiga? Que perversão é essa?", pensou, preparando o celular para filmar e arrombar a porta.

Gustavo chutou a porta de vidro com o pé direito, fazendo uma entrada triunfal e barulhenta.

— Eu sabia! Eu peguei vocês seus... — a frase de Gustavo morreu na garganta.

O ambiente era uma sala ampla, pintada em tons pastéis relaxantes...

As duas mulheres congelaram, olhando para a figura deplorável de Gustavo: um homem descabelado, ofegante, com a calça rasgada de alto a baixo e manchas de sangue no joelho e na camisa.

O silêncio na sala foi absoluto por cinco segundos, quebrado apenas pelo latido do pastor-alemão na base da varanda.

— Gustavo?! — Letícia deu um salto do divã, com os olhos arregalados. — Que loucura é essa? O que aconteceu com você? Por que você está todo rasgado e sangrando nesse frio?

A senhora grisalha ajeitou os óculos, calmamente, e anotou algo na prancheta antes de falar: — Presumo que este seja o Gustavo. O marido hiper controlador de quem estávamos falando agora há pouco, Letícia.

Gustavo olhou para os lados. Nenhum homem de cueca. Nenhuma garrafa de espumante. Apenas duas mulheres e um divã.

— Você... você não está me traindo? — perguntou Gustavo, a voz saindo fina pelo cansaço.

— Traindo?! — Letícia cruzou os braços, passando da surpresa para a indignação. — Eu estou fazendo terapia de apoio emocional, Gustavo! Eu estava tendo crises de ansiedade por causa da sua obsessão por planilhas, metas familiares e por você tentar gerenciar a nossa vida como se fosse uma startup do Ecoville! Eu pagava em dinheiro porque sabia que se aparecesse o nome 'Psicologia' na fatura do cartão, você ia puxar o currículo da terapeuta no LinkedIn e analisar as sessões!

 

Gustavo sentou-se em uma cadeira estofada, derrotado. O celular com a câmera aberta caiu no seu colo. — Mas a IA... a IA rodou o modelo preditivo... deu 94%...

— A sua IA pode ser ótima para calcular a logística da empresa, meu jovem — disse a terapeuta, com um sorriso irônico —, mas ela não entende nada sobre o mecanismo de defesa de uma esposa que só queria uma hora de paz por semana sem ser monitorada pelo marido.

Letícia olhou para o marido. O ridículo da situação — ele de calça rasgada passando frio, fugindo de cachorro para invadir um consultório — era tão grande que a rigidez curitibana dela começou a se dissipar. Um riso nervoso escapou de seus lábios.

— Você é um idiota completo, Gustavo. Mas pelo menos descobri que você ainda corre de cachorro por mim.

Gustavo olhou para a esposa e depois para a terapeuta. — Doutora... a senhora tem uma calça reserva? E... por acaso tem horário livre para terapia de casal na próxima hora? Acho que meu algoritmo precisa de um reboot urgente.

Letícia riu alto, limpando as lágrimas do rosto. No final das contas, o viés de confirmação de Gustavo estava errado, o diagnóstico da IA foi um fiasco, mas o casamento deles, por vias completamente tortas e hilárias, tinha acabado de achar o seu caminho de volta.

Crônica 9: O Overbooking Amoroso


Se existia um casal que conhecia o peso do concreto armado na Paraíba, esse casal era André e Mariana Lins. Ambos engenheiros civis de uma das maiores construtoras de João Pessoa, eles passavam os dias gerenciando fundações, lidando com atrasos de fornecedores e erguendo as novas torres residenciais que redesenhavam a orla de Cabo Branco.

A rotina era um canteiro de obras caótico. Para evitar que o casamento desmoronasse sob o peso dos prazos, eles decidiram terceirizar a organização da vida conjugal para a tecnologia. Contrataram o HomeSync, um aplicativo de agenda familiar integrado a uma Inteligência Artificial de última geração. O software tinha permissão para ler os e-mails profissionais de ambos, cruzar dados de geolocalização e criar eventos automáticos para otimizar o tempo escasso do casal. Se a IA lia que André tinha uma brecha na quinta-feira e Mariana também, ela bloqueava o horário e sugeria: "Hora do casal".

Naquela terça-feira, André estava com os nervos à flor da pele no escritório técnico em Tambaú. Ele precisava fechar com urgência o contrato de revestimentos externos para a fachada de um espigão de trinta andares. A negociação era complexa. Após dezenas de mensagens, ele finalmente chegou a um acordo com a representante comercial da fábrica de cerâmicas premium.

Aliviado, André respondeu ao e-mail da profissional: “Mariana, fechado o preço por metro quadrado. Almoço nesta quinta-feira, às 12h30, no Mangai, para assinarmos o contrato de fornecimento. Levo os anexos técnicos.”

O remetente do e-mail era Mariana Albuquerque. Mas o HomeSync, operando em sua lógica puramente matemática de automação de rotinas, falhou na checagem dos metadados. A IA ignorou o sobrenome no cabeçalho e isolou apenas o primeiro nome: "Mariana". Para o algoritmo, "Mariana + Almoço reservado pelo marido = Evento Conjugal Prioritário".

Em menos de um milissegundo, a agenda familiar disparou suas ações automatizadas. O aplicativo bloqueou a quinta-feira de Mariana Lins (a esposa) com uma notificação luminosa no celular: “Surpresa! André reservou um almoço romântico para vocês no Mangai.”

Para piorar a engenharia do desastre, a IA identificou que Mariana Lins tinha um compromisso conflitante no mesmo horário — uma vistoria técnica de concretagem de sapatas na obra. O software, programado para priorizar a "saúde do relacionamento", enviou um e-mail automático para o mestre de obras cancelando a vistoria e justificando: “Imprevisto pessoal da engenheira. Adiado para sexta.”

Na quinta-feira, o calor de João Pessoa estava de rachar o asfalto. Mariana Lins chegou ao restaurante flutuando. Estava exausta, com o cabelo preso e a marca do capacete de obra na testa, mas genuinamente tocada pelo romantismo do marido. Há meses eles não conseguiam almoçar juntos sem falar de cimento.

Ela entrou no salão climatizado, procurou pelas mesas do fundo e avistou André. Ele estava em uma mesa reservada para três pessoas. Sobre a toalha, não havia flores; havia três catálogos grossos de cerâmica esmaltada, duas plantas arquitetônicas estendidas e um tablet ligado. Sentada ao lado dele, estava uma mulher elegantíssima, de blazer linho, discutindo prazos de entrega de contêineres.

Mariana Lins estacou. André, ao ver a esposa se aproximar trajando a farda da construtora e botas de segurança, arregalou os olhos. O sangue dele sumiu.

— Mari?... O que você está fazendo aqui? — gaguejou André.

— Como assim o que eu estou fazendo aqui, André? — Mariana Lins sentiu o estômago revirar, olhando para a outra mulher e depois para as plantas sobre a mesa. — Você me mandou um alerta de almoço romântico! A nossa IA cancelou a minha concretagem de fundação da tarde para eu vir comer carne de sol com você!

A representante comercial, percebendo o tamanho do curto-circuito, recolheu seus papéis timidamente. — Prazer, engenheira Mariana... Eu sou a Mariana Albuquerque, da fábrica de revestimentos. Nós viemos... assinar o contrato das torres.

Mariana Lins olhou para o celular e depois para o marido. A humilhação profissional misturou-se com o cansaço acumulado da semana.

— O aplicativo... — André levou a mão à cabeça, empalidecendo. — Eu mandei o e-mail para ela agendando o contrato. O HomeSync achou que era você.

— Pois o seu aplicativo maravilhoso acabou de atrasar a entrega da laje do subsolo em vinte e quatro horas, André! — a voz de Mariana saiu firme, embora os olhos estivessem faiscando. — Ele achou que era mais importante eu vir aqui ser o terceiro elemento da sua reunião de negócios do que fazer o meu trabalho.

André levantou-se, pediu desculpas trêmulas à fornecedora e puxou a cadeira para a esposa. O almoço de negócios virou uma DR de engenharia civil. Eles não brigaram por ciúmes ou traição; brigaram pela perda do controle de suas próprias vidas para as linhas de código.

— A gente virou refém dessa porcaria, Mari — desabafou André, olhando para o prato que esfriava. — A gente automatizou até o carinho para ver se sobrava tempo, e agora a máquina decide quando a gente come, quando a gente trabalha e com qual Mariana eu estou conversando.

Mariana olhou para o marido. O estresse dele era o mesmo dela. O erro do algoritmo era ridículo, mas o motivo real de estarem ali era o fato de que eles não se comunicavam mais sem uma tela intermediando.

Ela pegou o celular, abriu as configurações do HomeSync e desativou a função "Leitura Automática de E-mails". André fez o mesmo.

— Daqui para a frente — disse Mariana, servindo-se de um copo de suco —, se você quiser almoçar comigo, você vai ter que gastar trinta segundos da sua vida humana me ligando e falando com a sua voz. Sem assistente virtual.

André sorriu, tenso, mas aliviado. — Aceito o aditivo de contrato.

Eles pediram desculpas à fornecedora, assinaram os papéis do revestimento entre uma garfada e outra, e terminaram o almoço dividindo uma cartola de sobremesa. A tecnologia tinha tentado otimizar o amor e quase implodiu a produtividade do dia, mas no fim, os dois engenheiros descobriram que nenhuma máquina é capaz de calcular a complexidade de uma estrutura feita de carne, osso e rotina.

Crônica 10: O Modo Avião


Havia dois anos que André e Clarice habitavam o mesmo plano de existência como dois fantasmas digitais. Desde aquela fatídica noite de quarta em que Clarice usou o perfil compartilhado do Spotify para deletar a playlist do casal e decretar o divórcio em tempo real, a comunicação entre eles havia sofrido um shut down definitivo. Bloqueio no WhatsApp, mútua invisibilidade no Instagram, contas bancárias desvinculadas. Eles haviam se apagado mutuamente das redes. O que André não sabia é que o mundo analógico é bem menos controlável que um feed de notícias.

Junho de 2026 trouxe um inverno rigoroso na América do Sul. Clarice tinha ido a Buenos Aires passar dez dias tentando curar o cansaço do escritório. André, por pura coincidência estatística, passara a semana esquiando em Bariloche e guardara os dois últimos dias para caminhar por Palermo. Eles cruzaram as mesmas ruas, saborearam os memos sorvetes na Recoleta e tomaram café a três quadras de distância um do outro. Nenhum algoritmo de geolocalização os alertou.

O destino humano gosta de ironias, mas o algoritmo de check-in das companhias aéreas é ainda mais sádico.

No voo de retorno da Aerolíneas Argentinas com destino ao Galeão, o sistema de reservas operou sua lógica padrão de eficiência de peso e balanceamento. Procurando passageiros solitários para preencher os assentos do meio na classe econômica, o software cruzou os dados e alocou os dois na mesma fileira.

André foi o primeiro a embarcar. Acomodou-se na janela, assento 24A, colocou os fones de ouvido de última geração com cancelamento de ruído e fechou os olhos, pronto para ignorar o mundo pelas próximas três horas.

Cinco minutos depois, ele sentiu alguém parar no corredor. Abriu os olhos. Era Clarice, segurando uma bolsa de mão e o bilhete do assento 24B.

O choque foi quase físico. A pressão da cabine pareceu cair instantaneamente antes mesmo da decolagem. Clarice congelou no corredor, os olhos arregalados, olhando para o homem com quem dividira cinco anos de vida e dois de silêncio absoluto. André tirou os fones devagar, a boca entreaberta. O fluxo de passageiros empurrando Clarice por trás a obrigou a tomar uma decisão puramente pragmática: ela engoliu o orgulho, entrou na fileira e sentou-se no assento do meio.

O avião taxiou e decolou rumo ao céu cinzento de Buenos Aires.

A primeira hora de voo foi um exercício de tortura psicológica. Eles dividiam o mesmo apoio de braço de plástico, sentindo o calor do corpo um do outro a cada centímetro de turbulência, mas mantinham os pescoços rigidamente virados para lados opostos. André fingia ler uma revista de bordo antiga; Clarice olhava fixamente para a tela desligada do celular. Ambos haviam ativado o Modo Avião. Sem 5G, sem notificações, sem curtidas e sem a barreira protetora das telas, eles estavam confinados a dez mil metros de altura, desarmados de suas defesas virtuais.

O gelo rachou na altura de Porto Alegre. O avião entrou em uma zona de forte instabilidade e despencou alguns metros no vácuo, fazendo os passageiros soltarem um suspiro coletivo. Com o solavanco, a bolsa de Clarice escorregou do colo e o seu celular caiu exatamente sobre as coxas de André.

Ele segurou o aparelho por reflexo. Com o impacto, a tela do telefone dela se acendeu.

André ia devolver o aparelho sem olhar, mas o visor exibia o aplicativo de streaming de música em modo offline. O Modo Avião havia isolado o celular da rede, mas deixara visível o que estava armazenado na memória interna. No topo do visor, pausada, estava a música “Velha Infância”. E, logo abaixo, o nome da pasta de arquivos locais baixados que Clarice esquecera de deletar do armazenamento físico: “Nossa Playlist - A&C”.

A mesma lista que ela havia destruído publicamente na nuvem há dois anos continuava salva, em segredo, no coração do aparelho dela.

André olhou para a tela. Depois, olhou para Clarice. Ela estava vermelha, a respiração curta, percebendo que sua maior vulnerabilidade analógica tinha sido escancarada pelo rastro digital.

— Você não deletou tudo — disse André, a voz saindo rouca pelo tempo de silêncio.

Clarice desviou o olhar para a janela, observando o tapete de nuvens brancas lá fora. — O aplicativo apagou da rede. Mas o telefone guardou no cache. Eu esqueci de limpar a memória interna.

— Duas memórias internas não se limpam tão fácil assim, Clarice — respondeu ele, estendendo o aparelho de volta.

Ela pegou o celular, mas não o guardou. O susto da turbulência e o flagrante da música quebraram o verniz da indiferença.

— Como você está, André? — perguntou ela, baixinho, quebrando o protocolo do divórcio.

— Tentando reconfigurar a vida. Mas o sistema operacional novo é meio travado — ele sorriu de canto, um sorriso que ela conhecia bem. — E você?

— Fiz muita terapia. Parei de seguir perfis de casais perfeitos. Descobri que a vida fora das métricas dá muito mais trabalho, mas é de verdade.

Pelos próximos noventa minutos, o ex-casal fez o que a tecnologia os havia desaprendido a fazer: conversar sem filtros, sem emojis e sem o medo do julgamento dos outros. Sem o ruído de fundo da internet, eles falaram sobre as dores da separação, os erros de comunicação, o peso que colocavam nas costas um do outro e como o orgulho digital os impedira de mandar uma mensagem simples de "sinto sua falta". A cabine apertada da classe econômica virou a sala de descompressão que eles nunca tiveram.

Quando o comandante anunciou o procedimento de descida para o Rio de Janeiro, o sol da tarde começava a dourar o contorno da Baía de Guanabara.

André olhou para Clarice. O braço deles ainda se tocava no apoio central, mas a tensão havia sumido.

— O que a gente faz quando o avião pousar e os celulares saírem do Modo Avião? — ele perguntou, sabendo que as notificações e o mundo exterior tentariam engoli-los novamente.

Clarice pegou o fone de ouvido de fio que estava na sua bolsa. Conectou no aparelho, colocou uma das saídas no seu ouvido direito e estendeu a outra extremidade para ele.

— A gente deixa a rede desligada por mais um tempo — ela disse, dando o play na pasta offline.

Enquanto as rodas do Boeing tocavam o asfalto do Galeão com um tranco seco, a voz dos Tribalistas começou a tocar simultaneamente nos ouvidos de André e Clarice. Eles saíram do avião de mãos dadas, deixando para trás o rastro do passado e descobrindo que, para reiniciar certos laços humanos, às vezes é preciso desconectar o mundo inteiro primeiro. A vida real é feita de segundas chances...

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